Fórmula para o sucesso: ditadura?!

Ontem, um artigo entitulado “A fórmula brasileira para o sucesso—ditadura” foi publicado pelo Ricardo Amaral no site da RGE Monitor. RGE Monitor é a empresa de análise econômica do economista Nouriel Roubini. O site da empresa é reconhecido como um dos melhores no mercado de análise econômica. Leia o artigo em inglês abaixo. (obs: desde que escrevi essa resposta, o artigo foi retirado do site da RGE Monitor, após ser criticado no Financial Times).
Tal artigo impressiona pela falta de conexão dos argumentos, muitos dos quais são refutados facilmente pela comunidade acadêmica. Com uma pobre escolha de palavras, ao defender a “volta” de uma “ditadura benevolente,” ele parece esquecer que, se na teoria a terminologia de Platão parece implementável, na prática, o mundo nunca testemunhou uma única ditadura benevolente e altruista.
Ele também parece negligenciar o fato que as ditaduras—sejam elas de partido únicos e hegemônicos, militares, ou facistas—compromentem as liberdades públicas e civis, liberdades que ele deliberadamente não aborda. Ironicamente, tais liberdades são as mesmas infringidas diante da onda de crimes e violência que o Brasil tem sofrido.
Mais importante ainda, ditaduras não implicam crescimento econômico e desenvolvimento sustentável. Os anos do crescimento milagroso brasileiro ocorreram sob o regime militar, mas tal crescimento não foi igualmente distribuído e nem foi duradouro. Sob a tutela militar, a economia brasileira cresceu de forma artificial, ou será que já esquecemos os anos de hiperinflação que seguiram aos anos milagrosos? Sob o controle de uma ditadura, a liberdade econômica, assim como seus benefícios, também são perdidos, seja essa ditadura militar, de um partido único ou de um indivíduo.
Lembremo-nos também que os benefícios do nosso crescimento econômico ficaram limitados as classes mais altas e aos mais próximos do governo, o que pode ser visto na distribuição de renda, pois o coeficiente de Gini aumentou de 0.5 nos anos 60 para 0.57 nos anos 70. Desde então, sob instituições democráticas, a distribuição de renda tem melhorado e finalmente os benefícios do crescimento econômico foram alocados para as classes mais baixas. Na verdade, se o autor do texto analizasse os dados mais recentes de distribuição de renda e PIB per capita das classes mais baixas no Brasil, ele chegaria a conclusão que tem havido uma melhora substancial na qualidade de vida de tais brasileiros, o que contraria suas afirmações.
A conclusão de que “…os militares deveriam tomar o poder mais uma vez no Brasil através de um golpe de estado…” rejeita os valores mais fundamentais da liberdade democrática. Mais do que isso, negligencia as mais devastadoras histórias que ditaduras no mundo inteiro representam. Contra a conclusão do Ricardo Amaral, uma frase de Churchill frequementemente citada serve como uma luva: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos.”




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