Último Dia em Roma (ou "O Dia que Chorei no Museu")

Alguém sabe que imagem é essa? E não, não é nada pornográfico… 

Depois de quase uma semana na Toscana, na véspera do nosso retorno aos EUA, voltamos para Roma, para curtir um último dia na “Cidade Eterna.” Apesar de ter gostado mais da Toscana do que de Roma, ainda tinha um programa FUNDAMENTAL em Roma que não tínhamos feito, então resolvemos sair da Toscana cedinho, para chegarmos em Roma no horário do almoço. 
E qual era o programa FUNDAMENTAL?! Visitar a Galleria Borghese, é claro! A Galleria Borghese é um dos meus museus prediletos no mundo! Obviamente eu não fui (ainda…) em todos os museus do mundo, mas acho difícil a galeria algum dia perder sua posição no meu ranking. Afinal, não é qualquer museu que me emociona tanto que eu começo a chorar…(sim, eu chorei no museu…é que as esculturas da Galleria Borghese são uma coisa de outro mundo.)
A Galleria Borghese fica dentro da Villa Borghese, um parque maravilhoso em Roma. O parque era um antigo vinhedo, e foi transformado em “parque urbano” pelo Cardinal Scipione Borghese, sobrinho do Papa Paulo V. Acho que, após visitar o parque, Roma subiu no meu conceito (é que, até então, eu estava meio decepcionada com Roma…)
A vista da Villa Borghese é belíssima! 

Dá até para ver a Basílica de San Pietro lá no fundo. 

E aqui, a Galleria Borghese, o museu com as esculturas mais belas do mundo! (ah, as visitas ao museu são feitas com hora marcada, por isso é bom comprar com bastante antecedência, online).

A Galleria Borghese é bem pequena, com apenas 20 salas em seus 2 andares. Porém, é aqui que ficam as esculturas mais maravilhosas do Gian Lorenzo Bernini, inclusive as minhas duas esculturas prediletas: David e o Rapto de Proserpina. 
A primeira escultura neoclássica de destaque que a gente vê ao entrar no museu não é um Bernini, mas sim Venus Victrix, do Canova (1805-08). A modelo da escultura é Pauline Bonaparte, irmã de Napoleão, mulher de Camillo Borghese. Não se sabe se Pauline posou nua para a escultura (o que seria um escandalo!) ou se meramente seu rosto serviu de modelo, já que na época era bem comum retratar “meros mortais” sob o disfarce de deuses, nesse caso, evocando Afrodite (ou Venus), como se observa pela maçã que Pauline segura na mão, evocando a vitória de Afrodite no Juízo de Paris. O que mais nos impressionou nessa escultura não foi o corpo de Pauline/Venus, mas sim os detalhes do colchão sob o qual Pauline se deita. Nenhuma foto faz jus a delicadeza atribuída a esse detalhe. Você vê todas as dobrinhas do colchão; aonde o peso do corpo de Pauline é maior, o colchão “afunda” mais. Para mim, fazer uma tábua de mármore ter esse aspecto maleável, com cara até de “confortável” é algo realmente impressionante! 
Na próxima sala, fica a primeira escultura de Bernini exposta na Galleria: 
David! 
Para mim, o David de Michelangelo não chega nem aos pés do David de Bernini. Assim que me deparei com essa obra de arte monumental, comecei a lacrimejar…
Sério, essa escultura não é maravilhosa?! 

O David de Bernini (1623-24) é um dos marcos da escultura barroca. Ao contrário dos Davids famosos anteriores (de Michelangelo e Donatello), o David de Bernini não é um deus, mas sim um mero mortal. Dá para sentirmos todo o esforço que David faz ao enfrentar Golias. Ao colocar David na clássica posição de “contraposto” (quadril inclinado), Bernini capta um instante no tempo, e é essa sua especialidade. A gente consegue ver David se contorcendo com tensão e largando a pedra com toda sua força. Ou seja, a escultura tem VIDA!

Não dá para sentir o suor praticamente escorrendo na face de David?! Os lábios apertados,  a testa franzida, tudo isso capta um instante no tempo, dando vida ao mármore. 

Apesar de David ter um único ponto de vista, a maneira cuja qual Bernini criou o movimento no espaço sugere outros pontos de vista possíveis ao público, nos convencendo a mover ao redor da obra. E a cada passo que tomamos ao redor da escultura, descobrimos novos detalhes, que fazem com que David seja cada vez mais real. É realmente impressionante!

Essa imagem merece ser clicada, pois cada angulo da obra merece ser visto. 

Depois de David, a próxima escultura (tb de Bernini) é a famosa Apollo e Daphne. Apesar dessa ser uma das mais famosas de Bernini, não é uma das minhas prediletas, então não vou discuti-la em detalhe. A única observação que farei é para repararem que, mais uma vez, Bernini captou um instante de tempo na escultura. A gente tem a impressão de que Apollo ainda está correndo (com seu pé elevado) e praticamente esperamos a transformação de Daphne em árvore finalizar enquanto observamos a obra.

E finalmente, por último, a obra de Bernini que mais me impressiona, e que foi a responsável pelas minhas lágrimas em pleno museu: 
O Rapto de Proserpina (1621-22)
A história do rapto de Proserpina não é uma das mais agradáveis: Plutão a sequestra, levando-a para o submundo, aonde ela se tornará sua rainha.
A “figura serpentinata” (ou seja, trançada) permite a representação simultânea de vários momentos. Vista pelo lado esquerdo, a escultura capta a abdução de Proserpina, com Plutão quase caminhando para agarrá-la. Quando observamos a escultura pela frente, vemos a chegada de Plutão no submundo, carregando seu troféu. E quando olhamos a escultura pela direita, vemos as lágrimas de Proserpina, com seus cabelos ao vento, enquanto ela ora para sua mãe, Ceres. 
Aqui a obra em destaque dentro da galeria. 

Essa obra é cheia de detalhes maravilhosos, como a pele no rosto de Plutão, que é “amassada e levantada” pelo empurro da mão de Proserpina. 
Outro detalhe impressionante é a face de Prosperpina, aonde Bernini esculpiu lágrimas.
Mas o detalhe da escultura pelo qual eu sou completamente apaixonada é esse aqui:
Desde a primeira vez que vi essa imagem em sala de aula, fiquei obcecada por ela. Não parece que realmente é uma mão (de verdade), apertando uma perna (de verdade)? Para mim, esse “aperto” é uma das coisas mais impressionantes (e sensuais) que já vi em mármore. (Eu prefiro esquecer que esse “aperto” reflete um certo grau de violência…olhando somente esse detalhe, fora do seu contexto, prefiro interpretá-lo como algo sensual). 
Se não tivesse falado que era mármore, ninguém iria adivinhar, né? 
Depois de vermos essas obras maravilhosas, passeamos mais um pouquinho pelo parque, curtindo o final da tarde. Acho que visitar a Villa e a Galleria Borghese foram os melhores passeios em Roma. Adorei! Foi uma forma de fecharmos nossa viagem com chave de ouro. 
Ah, e é claro, na última noite na Itália, não podia deixar de tomar meu último gelato religioso de cada dia. E não, eu não comi esses dois…o meu é “só” o da esquerda (ADORO gelato de avelã!)
Ciao Italia! Ciao Gelato!

11 comentários sobre “Último Dia em Roma (ou "O Dia que Chorei no Museu")

  1. Adoro esculturas, sempre fico impressionada como alguém pega um bloco de pedra/mármore, um pouco de argila e 'faz' virar algo.

    Adorei 'conhecer' este museu pelos teus olhos, acho que nunca tinha ouvido falar. Bjs

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  2. Não tem comi ficar “decepcionada” com Roma, talvez vc tenha sido mal orientada durante a viagem. Tem tanta coisa linda na cidade eterna para se vê…as ruínas da Roma antiga, o Vaticano, Igrejas bizantinas, medievais, renascentistas, barrocas , neoclassicas (e por aí vai), bairros com cara de filme do Fellini como o Trastevere, Villas e Palacios opulentos como Villa Farnesina, Palazzo Colonna, Palazzo Barberini, Villa Farnese (sede da embaixada francesa, aonde se passa a ópera “Tosca”), Jardins maravilhosos, Comida sem igual…

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  3. Se vc curte as estátuas de Bernini e sua carnalidade sensual deveria ter ido a Igreja de Santa Maria Della Vittoria ver ao vivo “O Êxtase de Santa Teresa”…suas pernas ficariam bambas.

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  4. Oi Tatti,
    Nós fomos a Santa Maria Della Vittoria e adorei as obras de lá (tem até um post sobre isso no blog). O motivo pelo qual fiquei decepcionada com Roma é porque achei a cidade uma zona…tudo muito mal organizado…mas, como meu marido gosta de dizer, meu sangue deve ser anglo-saxão ou germânico, porque de latino, não tenho nada 🙂
    Beijinhos e obrigada pela visita!

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